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Solo
Tentos - invenções e encantamentos

Sobre

Tentos, invenções e encantamentos
compõem o filtro cativante que Luís José Martins nos dá a beber.

No Prelúdio, o convite, aceite quando o tema revenido ressurge transparente. O amplo arpejo percorre o relevo acidentado de todos os registos da guitarra, figuras regulares de um tempo rubato. À mercê deste jogo de expectativas, surpresas e consolos, achamo-nos dentro da cabeça do músico, no seu canto encantados. No seu canto e na sua escuta, cujas nuances são soberbamente captadas e amplificadas, da pura delicadeza à mais intensa energia. Esta música e este instrumento são o resultado de um já longo percurso musical, de anos de experiências, de tentos — sugestão remota da forma ibérica seiscentista, rudimentar e afável, mas sobretudo capaz de dar voz ao compositor por detrás do gesto livre e ornamentado, quase improvisado. Com origem certa na música experimental, a guitarra preparada, os sons gravados, delays e loops, o arco e as pequenas percussões, a scordatura diferente de cada peça, o transpositor e as novas técnicas instrumentais, a imersão da amplificação e da espacialização, podem ser tidas como extended techniques (quase todas, aliás, reunidas na derradeira Antumbra), como parte integrante da linguagem musical de Luís José Martins, do mesmo modo que as notas que ele escolhe, que os motivos que ele explora até ao limite ou que, nas suas próprias palavras, o lugar onde vai, onde chega e onde está.

Se a Canção desponta, afetuosa, da textura harmónica quase orquestral da acumulação e suspensão de motivos obstinados, o caráter eminentemente melódico da guitarra afirma-se em quase todas as peças, onde o acorde e o contraponto dão tantas vezes lugar ao mosaico polifónico. Ao lançar infinitamente novos motivos para dentro do Ostinato (entretecendo, como na Folksong, o tema à sua variação), ao desenhar a Umbra nota a nota (deformando, como o motivo volúvel do Estudo, a regularidade do tempo), aparece-nos claramente aquela “soma” indissociável da técnica e da linguagem, da invenção e da voz exteriorizada. É na Folksong, no entanto, sobre a lírica Senhora do Almortão, que é mais nítida a sobreposição e verticalidade polifónicas, onde as cordas friccionadas insinuam um contínuo de sanfona, se ouve o crepitar da viola braguesa e as notas graves da guitarra baixo. O filtro encantador revela os sentidos, o sentir, tanto da noite mais cerrada como do dia mais claro. Lugares diferentes postos lado a lado, a melodia escura engolida pela Ressonância aguda, a luz resplandecente que surge do Estudo de notas graves.


“Meus pensamentos se apuram,
Apuram-se os meus desejos
No ténue filtro celeste
De teus espontâneos beijos.”

— Bocage


Guilherme Proença

Discografia

Tentos - invenções e encantamentos, 2017 · Shhpuma
6 peças para guitarra clássica, guitarra preparada, electrónica e percussão
composto por Luís José Martins

Imprensa

Gonçalo Frota
Ípsilon

“Depois de Deolinda, Powertrio e Almost a Song, Luís José Martins descobre a que soa a sua guitarra quando deixados a sós. Tentos, Invenções e Encantamentos é uma obra de revelação, em que o criador venceu o intérprete.”

Pedro Esteves
observador

“esta revelação a solo junta-o ao lote de magníficos compositores e intérpretes portugueses da guitarra clássica” (…) “Daqui a uns meses este disco vai ser um cobertor quente. Tentos tem esse encantamento sem que seja preciso inventar muito. Basta que nos deixemos levar.”

 

Julien Aunos
citizen jazz

“...conjuga os idiomas clássico, pop e contemporâneo. Tentos – invenções e encantamentos é o seu primeiro álbum a solo. Assemelha-se a uma longa suite onde Martins demonstra uma grande mestria do seu instrumento...”



 

flur.pt
 

“Tentos” não evoca apenas o futuro: aliás, é sobre os ombros do passado, com um estudo aprofundado do seu instrumento e o veludo de outras épocas, que Luís se apoia, parecendo fazer uma subtil evocação a toda uma história da música para guitarra. Um disco completo, apaixonado e apaixonante, que fica para os nossos ouvidos como um dos momentos mais ricos da nossa produção nacional. E foi apenas uma estreia!”

 

Pierre Durr
Revue & Corrigée

“há sempre uma busca pela delicadeza dos sons, num contexto próximo da Renascença e na atmosfera de recolhimento que os conventos de S. Bento de Avis e S. Francisco em Coimbra oferecem, onde estas peças foram gravadas.”

 

orkhestra.fr
 

“Guitarras (preparadas e clássica), electrónicas e percussão dão corpo a um solo de uma perfeição ordenada por um sentido aguçado de detalhe e refinamento.”