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Turbamulta
com Eduardo Raon, Joana Sá, Luís André Ferreira e Nuno Aroso

Eduardo Raon · Harpa, Electrónica e Daxofone
Joana Sá · Piano e Idiofones
Luís André Ferreirá · Violoncelo e Electrónica
Luís José Martins · Guitarra Clássica e Electrónica
Nuno Aroso · Percussão e Sampling

Sobre

Cinco músicos inventaram um lugar onde surgem novas dinâmicas de performance e de criação musicais — a Turbamulta. Cada instrumento, como uma voz original e pessoal ampliada por novas técnicas de produção sonora, na fronteira entre intérprete e compositor, encarna cada um deles para lá do ensemble formal de música contemporânea. Gestos musicais recuperados da audição de sessões de improvisação conduzem a novas sessões e a novos gestos, sempre abertos — seja para o disco, seja para o concerto. Gestos abertos a novas convergências, divergências, tumultos ou até lirismos vagueando nos seus pensamentos até que um outro venha cutucar, puxar pelo braço para jogar também ou a outra coisa. Se nos podemos sentir como o Averróis de Borges olhando sem completamente perceber a que brincam as crianças no pátio, é porque a coesão desta turbamulta desenvolve formas de comunicação quase impercetíveis (longe dos muito claros “padrões de relações” das formas improvisadas: reiteração, imitação e transposição melódicas ou alternância entre momentos estáticos e livres) saindo dela uma música intensa e brilhante, profundamente articulada, enigmática e sempre surpreendente.

A essa comunicação não será alheia, simplificando, a junção de dois intérpretes a Eduardo Raon, Joana Sá e Luís José Martins (Powertrio) cujas nuvens de sons granulares e cintilantes o percussionista Nuno Aroso adensa e envolve e da qual o violoncelista Luís André Ferreira destaca notas e linhas sustentadas: a afirmação cúmplice do quinteto é muito clara, depois da introdução, na secção central de (like a mast, an arm, a head) onde um primeiro cluster grave do piano ocasiona gestos curtos e enérgicos, um segundo, texturas finas e delicadas. É que, indo um pouco mais longe na escuta, podemos detetar outros indícios do que (se) passa entre estes músicos. Aquele primeiro movimento conduz o som dos chocalhos, que todos tocam, a pizzicatos Bartók da guitarra e do violoncelo, a ataques graves da harpa e do piano, culminando enfim numa série de sons invertidos — um mecanismo semelhante surge na metamorfose do centro de in holes, em que todos os instrumentos se tornam, durante um longo momento, percussivos. O romantismo do exagero minúsculo volta logo a seguir na primeira parte do and they would stumble upon some figure, acompanhado por ecos da harpa que se desenvolvem até ao fim, em pano de fundo, na forma de pulsação de acordes da guitarra, depois da harpa, do piano e do vibrafone. A estas pulsações longínquas, como que no fundo do mar, juntam-se momentaneamente os outros músicos, afastando-nos da metáfora das crianças reguilas e relembrando que a música se pode firmar nas relações espontâneas entre os seres misteriosos dos abismos, que podemos admirar sem a inquietação de totalmente compreender.

Discografia

Turbamulta, cleanfeed 2018